quinta-feira, 28 de maio de 2020

28.05.2020

O dia não está muito bacana.
Tenho que produzir sobre coisas que não quero falar... caminhar por caminhos que não gosto... discutir coisas que não domino.

Eu domino alguma coisa?

Nada do que eu faço é realmente bom...

Reli um texto meu, escrito há 10 anos... as minhas angustias são as mesmas...

Tenho sonhado com pessoas que não conheço.

terça-feira, 14 de abril de 2020

14.04.2020

Hoje vou falar sobre várias coisas...

Primeiro, a saudade de quando escrevia tem me atentado ainda mais nos últimos dias. Recebi um em-mail de uma grande amiga, com a proposta de fazer uma corrente de poemas e escritos em geral.
Ontem mandei o poema que escolhi, fiquei entre dois. Um deles era tão triste que preferi fazer um favor ao meu destinatário e não mandá-lo.
Resolvi, então, mandar um do Paulo Leminski. A minha relação com esse poeta é meio dúbia, gosto muito de algumas coisas, gosto pouco de outras. Mas alguns poemas salvam dias. Também gosto do fato de quase nenhum ter título. Não gosto muito de títulos. No período do ensino médio, por várias vezes, perdi alguns pontos por esquecer de colocar ou criar um título. Não gosto de títulos.
Falando do que gosto, quero voltar a ler literatura, mas tudo parece difícil. tenho lido Antropologia, em doses muito homeopáticas, mas não tem sido prazeroso. Gosto mais de escrever do que ler antropologia. Enfim... uma coisa não existe sem a outra.
Mas sobre querer voltar a ler, ontem me lembrei de um dos meus livros preferidos, - e, sim, tudo é culpa da bendita corrente de poemas - "Antes do Baile Verde", da Lígia Fagundes Teles. Esse livro mudou a minha vida e não porque passa uma grande mensagem, mas porque a escrita é revolucionária. Feminina e forte. Sem romances ou reviravoltas. É duro e poético, sem ser poesia em versos e estrofes. São contos. Vários deles.
Uma certa vez, escrevi um breve conto (bem bobinho) sobre uma das frases de um dos seus contos "e abriu-se num leque o baralho murmurejante". Como uma frase pode te tirar do eixo sem ser, necessariamente, uma frase com um sentido filosófico ou sei lá o quê?
 ...

Hoje o dia está estranho, sufocante e prazeroso. Ele me faz sentir uma saudade de não do que e não de onde. Uma vontade de estar em casa em uma situação comum... eu não sei... eu não sei... eu não sei...
É o que mais tenho dito.
Em pleno abril, o tempo está frio, garoando e fechado. É meu clima preferido. Mas ele me traz tanta saudade...
...

Hoje a minha irmã relatou estar sentido alguns sintomas, como um pigarro... estamos num caos de medo e dúvidas. Ela trabalha como enfermeira em uma uti e já atendeu alguns casos da doença. Teve contatos.
Hoje ela nos comprou máscaras. Finjo não ter medo. Mas as vezes o medo é tão grande que gostaria de não estar aqui.
Eu não tenho medo da doença em mim, mas tenho medo dos outros e de tudo que pode acontecer.

...

Nada do que escrevo parece fazer muito sentido.
Caso alguém me escute nesse vácuo virtual, me mande um olá.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

06.04.2020

Tenho me adaptado a tudo isso. Não é uma adaptação estilo: ok, posso viver assim.
Mas está mais para um: "ok, sobreviverei"
Tenho me sentido carente de toque, de carinho.
E isso tudo me transporta para uma fase da minha vida que foi ótima e péssima... a minha adolescência.
A sensação de carência, misturada com uma sensação de estômago embrulhado de que alguma coisa vai acontecer, boa ou ruim, as vezes a gente só quer que aconteça algo.
Daí me lembro de experiências e pessoas e lugares e cheiros... e uma saudade das lembranças que nem sei se vivi vêm à tona, tão cortantes.
Talvez aquela ânsia por viver e por aventuras, seja quais forem.

Eu me lembrei de quando tinha um antigo blog, onde postava algumas crônicas que escrevia, e tudo que postava parecia ser endereçado para alguém. Esse alguém não existia na realidade, mas era uma possibilidade de me aventurar em algum lugar, de algum modo.

Acho que hoje estou um pouco mais reflexiva.
Tenho escutado a mesma música várias e várias vezes, uma música que não tem nada demais, mas marca um período que não me lembro se foi realmente bom, mas em que eu gostava de mim.
The Reason - Hoobstank

Nessa época, quando me sentia sufocada, ou escrevia, ou saía sem rumo pela cidade, andando por horas, sem nenhum objetivo. Isso me fazia bem, sinto saudade, quero fazer de novo.

O que está acontecendo com a gente?




sexta-feira, 3 de abril de 2020

03.04.2020

Isso aqui deveria ser um diário. Mas para variar, não consegui mantê-lo.
Tenho me afastado das notícias, me embrenhado no trabalho e em seriados orientais adolescentes.
Talvez meu isolamento seja baseado em fugir de mim também.
As vezes coloco os pés no chão com uma vídeo-chamada de amigos ou com acontecimentos que estão para além do meu controle.
Ontem uma amiga perdeu um ente querido, não foi para o vírus, mas por outras razões.
Não pude abraçá-la.
Sonhei que meu pai tinha morrido e que não pude me despedir.
O medo do afastamento tem me engolido.
E expressões como: "quando voltar ao normal" tem sido comuns.
Voltaremos ao normal?
Não sei.

Espero que não.

Espero que sim.

Quero voltar a ler.

Alguma sugestão?

Nesse vazio aqui, alguém me lê?


segunda-feira, 23 de março de 2020

22.03.2019

Infectados no mundo: 335 mil+
Mortos no mundo: 14 mil +

Infectados no Brasil: 1900+
Mortos no Brasil: 34

Hoje o dia foi pior. Foi triste, chuvoso e pouco esperançoso.
Ontem minha irmã teve uma crise de ansiedade. É enfermeira.
Meu companheiro estava menos triste, aparentemente.
Recebemos nossas sobrinhas, elas nos fazem esquecer de tudo.
Foi o último dia com elas antes da reclusão total.
Foram embora, deixaram a casa vazia.
Foi a primeira vez que chorei desde então.
Voltei para a casa dos meus pais, eles precisam de mim.
Ficarei longe do meu companheiro.

Vai ser foda!

P.S.: Percebi agora que coloquei os títulos das postagens com a data de 2019. Não vou mudar.
Sempre tive esse leg, meus cadernos sempre tinham metade das folhas com a data do ano anterior.



sábado, 21 de março de 2020

21.03.2019

Infectados no mundo: 260 mil +
Mortos no mundo: 10 mil +

Infectados no Brasil: 1000+
Mortos no Brasil: 17+

Hoje o dia foi estranho. A maldita normalidade...
Parece que tudo ainda é um sonho.As coisas parecem menos piores do que são.
Acordei tarde, meio triste, meio sem sentir. O meu companheiro não sorriu. Temos sorrido menos um para o outro.
Não saí de casa, nem para ver a rua.
Brinquei com a cachorrinha, Bela, o nome dela.
Almocei. Recebi minhas sobrinhas.
Elas não percebem nada do que tem acontecido. Talvez nunca se lembrem. É o que espero.
Tenho feito planos, sem a certeza de que poderei cumpri-los.
Quero manter uma rotina. Estou lutando por isso.


P.S.: Meu coração continua apertado.
Tenho a sensação que não respiro direito.

Sigamos!

O início

Em meados de dezembro de 2019, sem que o mundo nem mesmo desconfiasse, supostamente um morcego ou uma coincidência dessas que só existem na literatura, deu/deram início a um 2020 que seria marcado por uma mudança global. Enquanto chineses morriam e se perguntavam o porquê, nós aqui festejávamos o fim do pior ano da década (até aquele momento).
Diferente do que muitos filmes previam, o mundo não parou por um colapso zumbi, mas por uma doença que mais parece uma gripe e age tão sorrateira que seu maior risco é a falta de sintomas.
Em janeiro de 2020, o mundo olhava de camarote o desespero da gigante China, enquanto pensávamos que nada chegaria aqui. Logo, o desespero se alastrou aos seus vizinhos, todos orientais. Parecíamos imunes. Tudo parecia um sonho.
Em fevereiro a Europa adoeceu e mais do que qualquer país, a Itália parecia respirar por aparelhos. Enquanto a China aprendia a lidar com os sintomas, isolava a população e exercia seu absoluto controle político; os italianos compreenderam o processo como férias adiantadas, um ótimo motivo para se beber com os amigos.
Logo depois, alguns casos isolados apareceram aqui e ali e, de repente, a Itália estava lidando com quase mil mortes por dia. Uma população amplamente idosa não tinha muita munição para aquela "gripezinha".
Em março o mundo parou. Bolsas caíram. Dólar foi a 5 reais. A marola chegou como um tsunami aqui.
Tivemos a mesma resposta que a Itália. Férias. Praia. Bares.
Em menos de 1 mês, mais de 1000 infectados confirmados. 17 mortos.
De uma lado, o governo federal diz que é pânico coletivo, de outro, os profissionais da saúde imploram por uma quarentena real.
Aqui sempre faltou de tudo. Continua faltando.
A falta criou raízes. Não tem máscaras, luvas, papel toalha, álcool, quarentena.
As pessoas se sentem imunes.
E estamos aqui, tentando manter a sanidade.

Proponho esse blog como um diário do meu processo de quarentena. Longe de amores e amigos.
Seremos nós, nessa rede que afasta e une.
Humanizados pela desumanização da tecnologia.

Sigamos.

Bem-vindos!


Carolina Cadima